segunda-feira, 27 de novembro de 2017

exu do povo de rua

a gente se encontrou mais ou menos em setembro
e, desde lá,
um olho do mundo que
eu nunca tinha percebido
um olho do mundo,
um olho do mundo que estava dentro de mim
se abriu...

exu do povo de rua

exu do povo de rua
e a gente se entendia
se ensinava, se via uma na outra
tão diferentes
uma com um pouco demais
outra com muito pouco!
nas duas vontade
e fé de abrir caminhos

a gente quer mesmo
comércio
comer sim já que
tem fome que não passa
a de estômago, a de classe
a de cor

privilégio

que me faz arrastar pendurada
num arame farpado de uma fé
que não me deixa tocar a lama,
como não? se é lá que nasce toda vida...

a insistência por essa brancura
faz arder meus olhos astigmáticos demais
pra esse tipo de claridade
privilégio que me faz negar ancestralidade e,
se eu não me vejo,
nunca sinto cura
disso tudo que me rouba de mim

eu e ela
e o povo dela de rua
e o meu que não perdoa
o povo de rua

exu do povo de rua
e a gente se entendia
em gira em roda
em caminhada longa
e ela com 1 dia de resguardo

exu do povo de rua
e a gente se entendia

ela riscava o chão
eu também
desde minina
fazia altar com pedra e graveto
e nem sabia

ela agachava e conversava
e acocorada mesmo
dava de comer pras criança dela:
ana, vitor e
aquela efraim, nicole, agora, dalila
na barriga!

exu do povo de rua

e agora?
eu lembrando de você
me sustento!

laroyê!

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

ela saía de casa cedo
todo dia às sete
carregava bolsa, blusa, crachá
documento
que era único jeito de existir
até pro motorista do ônibus

quando chovia
se atrasava e patrão brigava
-mas a creche tava alagada e eu num tinha onde deixar as crianças
-num adianta!
essa gente
sempre arruma desculpa pra preguiça.

o café, às vezes, tirava preguiça dela
mas num dava aquele pouquinho de coragem
que ela queria pra sonhar.

pensava que num queria ter que passar a vida toda servindo patrão estupido.

e aquelas pedra tudo no meio do caminho
dizendo que era pra ela tá lá, carregando balde e vassoura.
não!
não não e não!
joga a vassoura e arruma confusão
grita, saiu que nem uma louca,
mas guarda o crachá porque
gostava desse lance de identificação.

-tá vendo?
-a gnt tenta ajudar, mas essa gente...!
-trás lá o catálogo novo?

e aquele tanto de pedra do meio do caminho

imprimiu uns currículo foi procurar emprego
e se inscrever em outro catálogo
queria estudar pra não ter vaga só nos trabalhos gerais
queria ser psicóloga e cuidar de crianças

mas aquele tanto de pedra no caminho

daniel chegou com a massa da boa
oferecendo pra ela vender e se erguer
- quero voltar pra essa vida não mano,
mas já que to sem saída,
passa aí! é só!

e assim seguiu até que todas as pedras no caminho fossem sendo fumadas
uma a uma

já sem documento, já sem nome, cartão, benefício do cras,
tudo pro imbecil do daniel
e agora?
ela sem bolsa?
sem documento?

foi encontrada morta, queimada
ali, perto dos eucaliptos e foi enterrada como
indigente.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

ampulheta

a areia que conta o tempo,
escorrendo desse triangulo pro outro,
solidificando vai e parando,

deixando essa noite sem fim de você não tá aqui.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

eu num sabia nem como responder.
ela sempre perguntava e eu não sabia como responder.
tinha medo que coubessem em mim.
tinha medo que ressoassem em mim.
e eu nada entendia.
eu nada sabia.
eu nada sentia.
ou só sentida sabia
que num sabia

esse saber que não dá pra explicar

corri
corria kms todos os dias
ia atrás de alguma corredeira
que me desafogasse daquela secura
ia tarde
mas tempo nem tinha significado
cedo ou tarde
certo ou erro
ja nem sabia


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

era o som do tambor aqui dentro
eu escutava,
era o cheiro da mata
da terra, da cura,
do único encantamento
eu sentia
e nem tentava entender

ciclo que nem chuva

na pedreira rocha
altares, cactos e sustento
e lá embaixo, na passagem de oxum,
pedra viva vibra e
me conta história antiga
tão antiga que
não lembro com cérebro,
mais pra pineal
me energiza

ciclo que nem chuva

construção,
casa grande de muro branco
celeiros
fogo na mata
corre, foge,
se esconde
que o caçador provê
e protege

ciclo que nem chuva

sinto cuidado ingênuo
quase desavisado e é
das mãos jovens de ossain
a cura
não medo da terra
não medo do natural
e tudo vira sobrenatural

ciclo que nem chuva

sentada na rocha, pedreira,
o velho xangô solta na voz dela rabugices
ensinando firmeza e sustentação, caô
pra mim que vivo nas nuvens
ensinamento sólido de
construir a casa na rocha
meu corpo na terra em terra
meu altar, reverenciando altares
minha casa
minha mente e coração
enterrados
pernas exuberantes pro mundo
cheiro, cheiros
vapor, protuberância
e eu tirei minha sandália, agô
pedi licença, agô, saravá
e entrei naquele santo lugar
santa casa árvore
fui casa
fui templo
fui corpo
fui altar
e lá de longe
vi entrelaçadas as duas
tão diferentes
uma branca, outra preta,
sendo as duas tão únicas
malhas, teias, rizomas,
em proteção, lugar e casa,
enquanto suas falhas,
perfeição...!
enquanto suas folhas a se
misturarem na minha lógica de
uma em duas, duas em uma

tronco que acolhe espinhos, espíritos
teia que acolhe gota
meu corpo, meu templo, minha casa
me acolhendo, me curando
atotó babá!




















fotos de fernanda fontoura

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

nunca me disseram
nunca me explicaram
logo a mim que sempre
tive privilégio?

nunca me quiseram
nunca assim me aceitaram
logo a mim que sempre
tive privilégio?

jogo fora a lógica
sacramontada
que lota
grandes e confortáveis
templos
construções

e me enoja e sobra
as sobras e cobram
cobre e dor no corte
agudo da lâmina afiada
côrte
transpassa e sangra
escorre em

cruz
tronco
madereiras
sangue daqueles
que carregam privilégios
dos outros nas costas.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

eu só sei da coragem 
por causa do medo!
escondida na mata
vivo hora de sair
com ofá no braço
furacão na perna
e ir ver o medo
saltando da minha sacada
como um jogador habilidoso.

lindo, talentoso,
híbrido
(e eu também híbrida)
confundindo ser
com queimar fogo estranho.
projeção de sombra
com vela na mão
e eu até acho bonito,
mas sei que não quero mais ele ali.
(e foi com amor que o mandei ir embora).
longe foi ficando
e eu perguntando
pra que isso tudo?
esses caras sempre?
um ou outro querendo me dizer
o que pensar
o que sentir
o que dizer
o que fazer
agora basta
bastarda
em pele
arde e basta
só pele e osso
desassossegada de
não ter direito
nem dinheiro
nada inteiro
sem fazer direito
o jeito certo de ser
(se é que isso existe)
sendo
só o que me basta:
água, terra, fogo e
ar
soprando nesses
ossos para que vivam!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

recebo o dia
como recebi a noite de ontem
energia feita em gente
em mim
pulsando braços
punhos dedos e eu:

sentido
espalhado no corpo todo
sendo um só!

uma só!
uma só de mim

terça-feira, 6 de junho de 2017

éramos 15 fêmeas
14 mulheres e
1 gata, a lua

a lua lá de cima
abençoava encontro
e ressoava som
sonho antigo:
ser mulher, lésbica e compositora
e ainda ter tempo pra descer
e ficar aqui no quintal de casa
sonhando sonho de
dandara e dandaluna
nessa casa do ipê
plantado por amiga yabá

ojá de flores brancas
e a gente começou a
sonhar com água

o ipê tinha sede

e veio seca
e veio água
e veio seca de novo
e água
e racionamento

e o bichim quase morre
ainda bem que os olhos da vizinha
e as mãos da regina
deram de volta vida pro ipê

e a gente aqui em
casa falando de feminismos
composição
e lesbiandades.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

sorver só ver ver só verso verbo carne energia feita gente ventre virgem dilaaaata reproduz cria nova vida existe acende ascende aos céus ressuscitada viva água viva vulva pedra tanto bate que fura fura bolo cata piolho e feixe de luz futrica e vê vislumbra essa coisa boba e simples que é a eternidade cinzas no templo do sol renascinzas nesse ciclo de saturno é cruz é pó é morte: o fim de tudo é o começo que é o fim de tudo que é o começo que é o fim e começo e tudo do que era do que é e do que sempre será!

quarta-feira, 24 de maio de 2017

ao som de cada palavra
uma gota pingando,
ecoando
bem baixinho
só pra me lembrar
que aqui dentro
também guardo palavras

q nem as gotas da chuva
pingando e secando
fazendo a gente desejar sol
e depois arrepiar
com a brisa quente
do ar de seu pulmão
em minha pele
dilatada
toda dada
ora rija.

nada

nado.
mergulho
desejo suas marés
tenho seu sal
a porção seca
de todo seu mar
mas ainda assim
me molho
só em ver você
passar
no meu mar
sendo seca
sendo ilha
sendo terra pra mim
e mar para o resto
de todos nós

ainda desenfreada
tenho mais vazio
agora,
e menos eu,
só pra poder me encher
de eu sou


domingo, 14 de maio de 2017

o céu eh branco
nessa seis horas de
amanhã que nunca chega

acho que eh branco
porque eh frio gelado
que nem meu peito
nesse resto de noite manhã

sexta-feira, 12 de maio de 2017

era eu em todas as eras!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

espelho

o que eu vejo eh isso:
cabelo corpo olhos
boca nariz queixo
ombro flecha
peito barriga
ela, vagina
pernas, furacão
pé pés
dando um jeito
de ficar em pé
medo
estranheza
e olho de novo
fico olhando
demorada
só olhando
sem dizer nada
só olhando e
gostando
e sendo isso.
ser eu
ter eu
ver eu
eh um dia de cada vez
nessas quartas
e desde os elos de saturno
eu venho
me tendo
me vendo
me sendo
toda ouvidos
em colo de olhos
tentando apagar o que não me diz respeito
só pra hoje
sopra oiá
só pra hoje
ser o dia de dizer pro espelho:
-espelho, eu...

terça-feira, 18 de abril de 2017

agradecida
foi assim q você me disse que
tava se sentindo quando eu perguntei
e eu também, pensei,
mesmo com os caldos
na beira do mar
caótico
caldos que eu recebia
pra entrar

um pouco
mais dentro,
porém
era mais calmo
foi mais calmo
está sendo mais calmo
até que de novo
as ondas
me lembram
que o mar é um
caos infinito
de tempo e tamanho
que se faz de 3 moléculas
forma triangular
criando todo
um outro universo
com milhares
de espécies e vidas
nascendo e morrendo
todos os dias

eu sou o mar
que nasce e morre todo dia
e nasce e morre
pedaço
pedaços de mim
desencaixados
pra tentar cumprir
forma não triangular

quis ficar só de calcinha na praia
mas num podia
porque tudo era só sexo

quis beijar minha mina na rua
e beijei
porque nem tudo era só sexo

enquanto escrevo
risco seu nome na areia da praia
e rezo, medito, oro e, também
muito agradecida
percebo que comungamos
da mesma fé
dita em livros diferentes
e você me ensina
a traduzir esse amor que me foi dado
e me desengasga

entre eu e o mar
nada mais há
que impeça d'eu ir lá
nem sermão,
nem irmão,
nem patrão,
nem medo do cão
sem medo de solidão
sei que se eu mergulhar
por baixo da onda,
me lançando no caos,
eu encontro a calmaria
de ser e cantar e viver
e morrer
como as pétalas amarelas
daquele blues que eu amo

fogo queimando
áries
buscando calmaria
de calor, afago, quentinho
e fritando sim, quando preciso

isso pra mim
tá sendo
calmaria
de verdade:
afundar nas ondas
do mar e saber
respirar e
poder fritar e dizer
e saber quem
eu sou!








segunda-feira, 17 de abril de 2017

elo, ela

elo, ela
unindo
guerreira
amante
poeta
cantora
garota elo

deusas
bruxas
fadas
todas
nós
em
cada
uma
do que
sou
do que
somos!

do que fui
do que fomos
do que,
juntas,
já somos!

04 abril 17

vem trazer pulseira
presente do mar
nessa quinta feira
dia de yemanjá

trago isso aqui
peito aberto
sem tentar fingir
nem ser tão esperta
ao ponto de insistir
encoberta só pra
tentar ser
a coisa certa

trago minhas mãos
trago meus pés
trago meu coração
e essa canção
que não tem que ser certa
pra me redimir
descoberta

salvador 3

salvador, 07 de janeiro de 2017.

o ano começou assim
sol, vento, praia e o mar, a mar
todinha lá, como se
pra me encantar e encantando
em canto, num canto, en
cantou e cantou final feliz
 mas não era final
era começo que se celebra com funeral
(por isso pareceu fim)
mas não era fim
dos restos mortais
ressurge uma
alada criatura
de antes
agora
de nunca mais
se junta
junta aquele resto
e leva pro templo
do sol

o ano começou
com
eu abrindo o olho e
vendo coqueiro
carregando fruto
mas se ninguém sobe no pé
pra ir buscar côco
seu ninguém bebe dessa água

com cara de paraíso
parecia o dia
com cara de paraíso
parecia a vida
e eu lá no meio dela
mergulhando e sonhando gotas
salgadas do mar
e a última oferenda do ano
dessa vez
teve sabedoria ancestral
pra explicar que mar,
que vento e caminho
podem ter nome e,
nesse caso,
yemanjá
que guarda pedido
e na hora apropriada devolve
o que não é de mar.



pra telma

indo de volta pro rio
pra ver o mar
e que saudade agora
que anseio
pra ele, pra ela
fazer prece e chorar,
prefiro orar assim,
neste lugar de sossego
e calmaria
aquele meu canto, seu
de almofadas e tapetes
gosto do gosto
das conversas
e das massagens
e dos risos
e das cores
e dos cheiros
e do jeito que você
fala de política comigo
e me mostra seguir, caminhar
jornada

e sorri, simples assim.

sábado, 1 de abril de 2017

conto ao meu ser

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele parece não me ouvir
e me convence a ceder

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele inquieta-se, pedindo que
eu lhe conte outro tipo de história, por favor!

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele se distrai com as próprias horas e
não quer mais saber de mim

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele se assusta, depois de longa espera,
e volta a prestar atenção em mim

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele se questiona,
não aprova, não entende, mas está disponível

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
e só agora ele entende que sempre foi hora
era só fazer acontecer crer