terça-feira, 26 de junho de 2018

o meu corpo é a casa do meu amor.
da ponta dos dedos
ao fundo do peito
eu te amo e me derramo por todos os orifícios poros
lugares e sensações
e a minha voz em gemido
vez em quando chama seu nome
só pra eu me escutar e
acreditar q vc tá perto.

hoje foi o dia do meu choro
corpo sofrido
alma lenhosa em fogueira
brasa de um amor eterno
desde antes
desde 1920
desde acampamentos
e dança e canto e tambor
pra manter o fogo aceso

hoje o meu corpo chora
uma fagulha desse amor
entardecer
dor
anoitece o dia
esfria o calor
que ainda chama
ainda há chama
e queima e
resseca meus olhos
e meus lábios que clamam
por seus beijos famintos, desejosos!
umidade me invade
me molho só de pensar
e o jeans, já sabe como fica, né?

o meu corpo é a casa do meu amor
e queima em fogo antigo de reduzir
às cinzas, racionalizar, traduzir 
tudo em palavras
e eu sei q sim
sei q devo acreditar só nas palavras
e seguir
renascendo das cinzas!

domingo, 24 de junho de 2018

isso de eu ter te conhecido desse jeito
no meio daqueles acordes e seu cheiro
com o céu lá dentro do teto rachado de casa,
e fumaça...

sua voz carregando meus
planos harmônicos
e eu seguindo seus sons en
cantantes
mas eu confesso:
não tinha feito nenhum plano
era puro improviso
e eu sabia
eu sabia
que meus dedos
dançavam nas teclas
seguindo seu pulsar voz
e a gente se tocou, se trocou
se reconheceu de algum tempo que a gente nem ousa dizer
a gente se trocou, se tocou
e eu, viciada no improviso que vc me sugeria,
não olhei mais fundo pra vc
não toquei mais fundo em vc
não me joguei fundo em vc
e vc tão funda, tão aberta, tão grande
ficou na espera de mais de mim e
nada...
você
me assustava

eu
com medo de vc me descobrir miúda
e o medo de ficar sozinha
também me assustava
e eu que tinha dito há pouco
que nada me assustava
mentira!

muita coisa ainda me assusta
e eu nunca sei mesmo de quê é o medo!

o que sei é que essa sua vibe ímã
hímen abrindo orifícios
me faz te querer perto, todo dia
hora de almoço, hora de cigarro
hora de papo, hora de qualquer coisa pra vc aqui
e eu sei que levo e
trago confusão e tabaco
e espalho com fumaça
mas sei também que
nosso abraço
nossos amasso
é além de físico
metafísico!



sexta-feira, 22 de junho de 2018

plutaniana

eu furo a epiderme
cerne da alma e
plutaniana
tem veneno de espora
asquerosa
e é de lá a cura
da garganta
ao ânus
intestino em riste
defeca a
massa fétida
da fé
tida
do desagrado
de sagrado

quimera
em águas profundas
quem me dera
cabeça e corpo de leão
massa

tida
como engano santo
profano
embrulha estômago
e indigesto
contexto laboratorial
de almas
enjauladas
em mansões
celestiais e rios de cristal
vaso de ouro
pra dejetos fecais

então não prende mais essa merda!
e deixa de conversa
que cocô é entra e sai que processa
e esvazia o fundo
daqui de dentro
pra caber
outro tipo de alimento
olfato
tato
oral
palato
boca
gosto
mordida
mastigada
engulida
digestão
[processo lento às vezes]
e bolo
e massa
e merda
e ânus

regência de plutão!

pra mim já é recomeço sua calcinha pendurada no banheiro pra mim já é recomeço seu poema gravado no peito e as cores tintas anilina água fogo ar pra me lembrar que nem que seja em mais uma vida ainda tem muito amor pra recomeçar e se demorar essa vida inteira junta com aquela que a gente já viveu eu ainda te quero e ainda de desejo e espero quero sim arrancar suas roupa tudim e... lembra daquele dia que vc me comia e perguntava se doía? e ia de vários jeitos e ia afundando me ensinando que dor é também jeito de meter [e vc mete gostoso] eu quero tentar assim com vc me deixa? algum dia? me deixa? esse é o meu jeito de ir tentando me deixa? me deixa tentar menter gostoso em vc sem te machucar tanto?

quarta-feira, 20 de junho de 2018

eu acreditei no mar!
acreditei na maré
acreditei que onde há mar é amar
e eu fui, fui atrás de lá
pra ver se aprendia derramar 

onde é que tava isso de amar em mim?
onde é que tava o mar em mim?
eu queria muito o mar, mas queria de longe
queria ficar olhando pra ele e ouvindo o barulho que ele me ninava de noite
mas quando chegando perto, tinha medo
confesso! tinha medo do mar! 
medo de amar!
medo de me afogar, dele me tragar
era eu um barquinho de papel naquele tanto de onda forte
me levando pra um lado e outro
e eu assustada tive medo de amar

as areias na boca das ostras se jogavam pérolas
e se faziam lá no fundo 
e eu naquela insistência pedi pra ouvir o canto da sereia

e ouvi
sussurrado no meu ouvido
pedindo pra eu tirar o medo e botar a fé

botei fé
uma reviravolta só
uma bagunça só
e não se trata só de colocar papeis em ordem
os outros papeis meus, indefinidos, confusos

mas enfim, eu te amo e num sei mesmo o q fazer com isso porque me revira muito!
e te amar vai além de ficar com vc ou te tocar!

acho q eu não vou mudar do jeito que achava q devia! 
acho q eu vou me aceitando aos poucos, legitimando aos poucos minha história, aceitando mais o que eu sou! 

essa sou eu
da cabeça aos pés
vento brisa estardalhaço
tud'spalhado
e mexo e remexo e bagunço
tem gente que não aguenta um minuto
fujo toda hora dessa que já não tem jeito
sou eu mesma
e agora?
é só ter a marra de continuar
e que pena não ter mais vc pra caminhar
cheiro de manhã fria
me sinto vazia
azia da vida se tudo dá zica
avisa que debaixo da camisa
não tem nada
só o oco de um peito aflito
que escolheu permanecer tentanto
e mudando e se deixando levar
pelo vento pelo mar 
e daí de fora parece mesmo que eu tô sendo engolida, né?
tô não! 
tem proteção 
tem casco duro
tem olhar maduro 
de quem já sabe o que quer
e escolhe 
a inquietação
o desconforto
a inadequação
de ser e estar 
num corpo marcado
e mudar!
mudar história
fazendo sua história

e depois morrer de novo porque pra viver é assim!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Poesia entalhada Quase pego um ferro, solda, martelo, meia dúzia de ferramentas que possam desenhar amor cravado, enterrado, cunhado, amor que vai se escrevendo abrindo frestas, porque sem rasgar e romper a linguagem não expressa a intensidade do que sinto! Jogo de formões Goivas Lâmina curva Formão direito Abrir sulcos Bem afiados Sem escorregar Alisamentos preliminares Barrilete para manter no lugar Alisar a superfície acabada Aqueça em lume brando Atravessa Gerações no Cariri Xilogravura Manifestação artística Expressão plástica de amor Para retratar em dimensões, luz e sombra, superficialidades e profundidades o universo mágico E feito isso se joga tinta e carimba amor por onde for. Nosso amor. Amo entalhado em mim. Amor que me abriu frestas, fissuras, brechas. Me fez ver meu material, o material que tenho e o material de que sou feita; e teu material. Imaterial. O nosso amor me levou a muitos lugares de mim. Me vi. Te vi. Ainda hoje reviso e revisito cada marca.

fernanda fontoura

sexta-feira, 15 de junho de 2018

me deixa

me deixa olhar você?
me deixa provocar você?
me deixa namorar você?

me deixa tocar em você?
me deixa cantar em você?
me deixa soprar em você?

me deixa loukinha, vai?
me deixa na sua boca?
me deixa no seu corpo?
me deixa ser seu colo?
e me deixa até ser seu calo,

mas não me deixa longe de vc, não, plis?


quarta-feira, 13 de junho de 2018

juntando os cacos
daqueles pedaços
de espelho quebrado
a imagem que vejo agora
tá fragmentada
cheia de pontas cortantes
e não é mais bela como eu pedia

deformada
deformando
a rigidez do reflexo
que carrego
com peso de patriarcado
mas,
aquela unica verdade que me refletia
caiu no chão

(como caiu por terra a bíblia do crente transfóbico do metro)

caiu e despedaçou o reflexo de um belo que não era eu
fragmentada eu tinha mais faces
despedaçada eu tive mais faces
eu me juntava,
me recolhia
um pedaço daqui
dali, de lá de antes
de agora e depois

e, saudosa,
ia me enxergando
e, mesmo embaçada,
retalhada, cheia de esparadrapo
era ainda a melhor imagem que eu já tinha visto de mim!


terça-feira, 12 de junho de 2018

eu continuo imaginando minha mão no seu corpo deslizando buscando 
o som
o desenho
a forma
o desconvexo
se abrindo na minha palma
curva pele
curta respiração
curto fôlego
curto você todinha
dos nervos do pescoço ao dedinho do pé
e cada bochecha e lábio e testa 
e fio de cabelo grudado em mim

imaginando seus sons 
saindo miúdos gemidos
até explodirem com o corpo todo 
no meio do prazer
gemido ápice
inteiro de prazer!
e eu não sei o que me dá:
loucura!
inteira me dando pra você
arreganhada aberta inteira
de dentro pra fora
funda tão funda que dá até medo de entrar
porque eu já aviso logo
aqui dentro é que nem noite sem lua
escuro
mas quando se olha de perto
dá pra ver uns detalhes besta 
que se tivesse na luz do dia nem se prestava atenção

foi ela que me disse pra eu não ter medo da noite!
foi ela que me ensinou a ver muito mais profundo no escuro
eu aprendi foi com ela a observar inseto
grilo 
muriçoca
vagalume
borboleta
joaninha
pulga e

aranha

quarta-feira, 23 de maio de 2018


um fio 
descasca 
se abre no circuito e
faísca, 
pirigando até acabar com a energia
um fio descendo da nuca
desenha no pescoço o prazer no silêncio do meio
um fio corda condão
pavio de vela que não apaga nem na chuva
um fio frio subindo pelas costelas
e o mesmo fio fino passando pelo braços e dedos
um fio do cabelo dela nas minhas pernas
e um fino fio pra brisar o jeito de temporal
um fio, linha tênue
um fio milímetro entre eu e você
um fio escarlate vermelho
             [marca de louvor à puta crista de jericó]
um fio que liga o mundo inteiro
um fio que conecta
desconecta e,
curto circuito aqui dentro!

desliga tudo e reseta!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

antigo
lascivo
escorre em gota
som suor
meu fogo afia
navalha corte
côrte céu
eu que achava q tinha resposta pra tudo
perdi o fio do carretel
perdi o fim da linha
perdi o carretel
a lua despiu-se de sua face e derramou seu leite lágrima sobre tudo que gera vida!
aqui dentro fundo
misturado, mexido
esse tanto de veia via de vida
vai passando
aqui dentro fundo
mata virgem
noite adentro
adentra em dores
articulações, reumatismos
da coluna à nuca
incômodo de osso
que se acomodou de mal jeito...
mal jeito é o meu jeito de amar
torto, acomodado, platônico
desgostado pelo seu não gosto,
afago raso molhado
e seu cabelo no meio dos meus dedos...
...ah se eu fosse toda mão e pele!
e aqui dentro fundo
emaranhado de faces e eus
só um desejo simples:
eu e vc numa tarde de amor não dito
em qq canto
em qq dia de qq canto
esse amor 
santo e profano
lindo e insano
forte e quebradiço
avassalador
desde a retina ate a fundura mais funda do peito
tomou-me em desassossego e me arrebatou assustada no meio da madrugada quando temi não mais líquido que
cria
aquilo tudo que é eu e vc!
jazz em porta fechada
jazz em onda se espalha pra cá
e jaz uma canção de nota errada
improvisada, 
sem certezas, sem cama, sem carma
eu não sei fazer diferente
e o meu toque não eh nem verdade nem mentira...
eu nunca tenho certeza de qual nota tocar
eu nem sempre sei qual grau aumentar
e x p e r i m e n t o
e, sem saber,
meu toque se arrisca ao prazer
pq se não for risco, não eh jazz!
harmonia, harmoniza
ar, mania
de acordar
do lado, na sua pele
só que
acorde novo,
aumentado, diminuto
alterado, com sexta menor,
eh jeito novo de acordar
pq o som da saudade
eh também dom da vontade
eh nota solta pra juntar em acordes!
eu sou exatamente
o que sou, exatamente
nós exatos cálculos
embolada
embaçada
embaraçada
toda misturada
e eu sou a vida eterna
eu sou é tipo mulher moderna
que pede sal, alho, gengibre e tempera
chupa os dedo e vai entrando
na alquimia de ser
fazer prazer
conversa vai,
conversa vem,
alquimia de ser magia
e transbordar tudo em prazer
do jeito q tiver q ser!
vai pra noite vai pro luar
sente o vento te embaraçar
desliza fina os dedo dela a levar
som de prazer 
som de querer 
o tanto de compasso que eu tocar
com passo lento sigo em onda de mar
sonora vem sereiar
sereia rabo no mar
eh capricórnia búfala
deusa do ar